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sábado, 5 de março de 2011

FELIZ CARNAVAL!!!


Estava procurando um texto sobre carnaval, porque hoje estou cheia de trabalho e não posso escrever. Achei este aqui, de ninguém menos que Fernando Pessoa!!!
Depois que vocês lerem o texto, com certeza, irão me perdoar por não ter escrito!.
Divirtam-se e...Um ótimo carnaval a todos!!!

"A vida é uma tremenda bebedeira. Eu nunca tiro dela outra impressão. Passo nas ruas, tenho a sensação De um carnaval cheio de cor e poeira... A cada hora tenho a dolorosa Sensação, agradável todavia, De ir aos encontrões atrás da alegria Duma plebe farsante e copiosa... Cada momento é um carnaval imenso Em que ando misturado sem querer. Se penso nisto maça-me viver E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso De mais... Balbúrdia que entra pela cabeça Dentro a quem quer parar um só momento Em ver on de é que tem o pensamento Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça... Automóveis, veículos, (...) As ruas cheias, (...) Fitas de cinema correndo sempre E nunca tendo um sentido preciso. Julgo-me bêbado, sinto-me confuso, Cambaleio nas minhas sensações, Sinto uma súbita falta de corrimões No pleno dia da cidade (...) Uma pândega esta existência toda... Que embrulhada se mete por mim dentro E sempre em mim desloca o crente centro Do meu psiquismo, que anda sempre à roda... E contudo eu estou como ninguém De amoroso acordo com isto tudo... Não encontro em mim, quando me estudo, Diferença entre mim e isto que tem Esta balbúrdia de carnaval tolo, Esta mistura de europeu e zulu Este batuque tremendo e chulo E elegantemente em desconsolo... Que tipos! Que agradáveis e antipáticos! Como eu sou deles com um nojo a eles!  O mesmo tom europeu em nossas peles E o mesmo ar conjuga-nos  Tenho às vezes o tédio de ser eu  Com esta forma de hoje e estas maneiras... Gasto inúteis horas inteiras A descobrir quem sou; e nunca deu Resultado a pesquisa... Se há um plano Que eu forme, na vida que talho para mim Antes que eu chegue desse plano ao fim Já estou como antes fora dele. É engano A gente ter confiança em quem tem ser... (...) Olho p'ró tipo como eu que ai vem... (...) Como se veste (...) bem Porque é uma necessidade que ele tem Sem que ele tenha essa necessidade. Ah, tudo isto é para dizer apenas Que não estou bem na vida, e quero ir Para um lugar mais sossegado, ouvir Correr os rios e não ter mais penas. Sim, estou farto do corpo e da alma Que esse corpo contém, ou é, ou faz-se... Cada momento é um corpo no que nasce... Mas o que importa é que não tenho calma. Não tenciono escrever outro poema Tenciono só dizer que me aborreço. A hora a hora minha vida meço E acho-a um lamentável estratagema De Deus para com o bocado de matéria Que resolveu tomar para meu corpo... Todo o conteúdo de mim é porco E de uma chatíssima miséria. Só é decente ser outra pessoa Mas isso é porque a gente a vê por fora... Qualquer coisa em mim parece agora".

 (Álvaro de Campos / Fernando Pessoa)



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